
A origem deste antagonista remonta à era de ouro dos quadrinhos da DC, lá na década de 1940. Naquela época, a identidade sob a lama pertencia a Basil Karlo.
O personagem surgiu como um aceno aos gigantes do terror clássico de Hollywood, Boris Karloff e Basil Rathbone. Karlo era um maquiador e ator em busca de vingança.
O novo filme Cara-de-Barro, sob a direção de James Watkins, escolhe um caminho diferente. A produção traz a versão mais popular do monstro para as telonas: Matt Hagen.
A Ascensão e Queda de Matt Hagen
Hagen domina a tela como um astro de cinema no auge. Pense no status de Leonardo DiCaprio nos anos 2000: jovem, requisitado e ciente do seu próprio peso na indústria.
A trama abre com a indicação de Hagen ao Oscar. Ele divide a alegria do momento com colegas de profissão e, logo depois, compartilha a vitória em um monólogo com a falecida mãe.
Tom Rhys-Harris assume o papel com uma presença de tela contida. O ator projeta um carisma silencioso e domina as cenas sem precisar elevar o tom de voz.
O cartão de visitas do protagonista é o seu rosto simétrico e o sorriso perfeito. Essa beleza atrai os olhares de Mia Torrez, uma estrela em ascensão vivida por Joana Ribeiro.
O problema surge porque Mia mantém laços estreitos com o submundo do crime. Ela é namorada do mafioso Marko Szabo, interpretado por David Dencik.
A Tragédia e a Transformação
O filme Cara-de-Barro não perde tempo com introduções longas. O roteiro dita um ritmo ágil e direto desde os primeiros minutos de projeção.
Aos 10 minutos de exibição, a lâmina de Szabo já destrói o rosto de Hagen. Aos 20 minutos, o galã caído busca soluções extremas e experimentais para recuperar sua carreira.
Ele encontra a Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie). A cientista conduz pesquisas controversas com células inteligentes voltadas para a regeneração acelerada de tecidos humanos.
Caitlyn vê no ator a chance de atrair atenção da mídia e dinheiro para financiar sua pesquisa. Ela transforma Hagen em uma cobaia humana.
A decisão clínica desencadeia mutações físicas agressivas. O corpo do protagonista sofre alterações brutais e ele perde o controle sobre a própria estrutura celular.
O Peso da Identidade e da Atuação
Ao perder sua principal ferramenta de trabalho, Hagen entra em colapso mental. A trama usa o drama corporal para questionar a verdadeira identidade do ator por trás da fama.
Ele ganha a habilidade de moldar o próprio rosto e copiar as feições de terceiros. Esse poder força o protagonista a reavaliar o conceito de interpretar um papel na vida real.
A narrativa prioriza o drama psicológico em vez do terror puro. O roteiro entrega toques de horror corporal, mas o foco permanece no declínio moral do personagem.
O texto insinua um passado sombrio na vida de Hagen. Szabo desenterra segredos comprometedores que, segundo a trama, têm forte fundo de verdade.
A versão original do roteiro carregava a assinatura de Mike Flanagan. A presença de Aaron Paul como o pai do protagonista sugeria uma exploração maior desse trauma familiar.
A revisão de Hossein Amini cortou grande parte dessa herança familiar. O trauma real ocorre no tempo presente da narrativa, afastando a justificativa fácil de uma infância difícil.
A Força do Elenco e as Falhas da Trama
Hagen não é transformado em um anti-herói redimido. O longa abraça a escuridão do personagem e mostra uma descida à loucura sem promessas de retorno.
Rhys-Harries entrega uma performance versátil e sustenta o longa. Ele convence como celebridade, transmite o desespero de uma vítima e assume o papel de vilão com naturalidade.
Essa atuação sólida compensa algumas decisões narrativas apressadas. O arco do detetive John Borelli (Max Minghella), noivo de Caitlyn, soa como um melodrama deslocado.
A direção de James Watkins cria imagens fortes. A visão da carne viva no laboratório e os resultados gráficos das cirurgias plásticas fracassadas geram desconforto visual.
O trabalho visual entrega cenas de mortes violentas e um encerramento memorável. A atmosfera oscila bem entre a repulsa e a curiosidade do espectador.
O Potencial do Terror no DC Studios
Ainda assim, falta uma voltagem maior na condução da história. Fãs de diretores como David Cronenberg vão sentir falta de uma abordagem mais agressiva e visceral.
O filme Cara-de-Barro discute personalidades fraturadas e exibe sequências gráficas, mas a execução pedia uma direção mais ousada para atingir o ápice do subgênero.
A sequência final eleva o nível da produção. O retorno de Hagen à boate inicial e a conclusão de sua metamorfose entregam os melhores momentos visuais da obra.
O longa valida a estratégia atual do DC Studios sob o comando de James Gunn. A iniciativa de permitir que os vilões explorem diferentes gêneros cinematográficos demonstra fôlego.
A obra não atinge o ápice absoluto do horror corporal, mas consolida um novo caminho. É um passo firme para diversificar as narrativas dos quadrinhos no cinema.
Nota do Crítico
Muito Bom
Wellington Farias
O Veredito
O filme acerta ao transformar o clássico vilão em um drama de terror corporal. Apesar de pedir uma direção mais intensa, a atuação sólida e o tom sombrio abrem portas promissoras para os novos gêneros do DC Studios.
Ficha Técnica
- Título: Cara-de-Barro (Clayface – EUA, 2026)
- Direção: James Watkins
- Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini
- Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Ruby Sear, Eddie Marsan, Max Minghella, Joshua James, Daniel Betts, Nancy Carroll, Sam Hazeldine, David Dencik, Wil Coban, Joana Ribeiro
- Duração: 109 min.
