
A assinatura criativa de John Francis Daley e Jonathan Goldstein carrega um histórico invejável nos cinemas modernos. Desde os roteiros afiados de Quero Matar Meu Chefe até a direção enérgica de Férias Frustradas, eles entendem como conduzir o riso. A dupla domina o ritmo da comédia e sempre consegue arrancar atuações muito acima da média dos seus elencos regulares.
Agora, esses dois cineastas aplicam todo o seu talento acumulado em Mayday, uma grande produção original da plataforma Apple TV. O filme chega encabeçado pelo astro Ryan Reynolds dividindo a tela com o veterano Kenneth Branagh. Eu comecei a sessão esperando um projeto formulaico e terminei a exibição genuinamente chocado com a qualidade do material entregue.
O maior choque dessa experiência positiva recai justamente sobre a escalação do protagonista principal. O talento humorístico de Ryan Reynolds costuma testar duramente a minha tolerância nas salas de cinema. Ele raramente constrói um personagem inédito e prefere se escorar na mesma persona irônica que dispara frases de efeito sem parar.
O Enredo de Mayday e a Dinâmica na Guerra Fria
O roteiro inteligente percebe esse padrão cansativo e cria uma estratégia para domar o seu próprio ator. Os cineastas reservam os primeiros vinte minutos da aventura quase exclusivamente para os maneirismos conhecidos de Reynolds. Ele interpreta Troy “Assassin” Kelly, um piloto de caça muito confiante da força aérea dos Estados Unidos durante os anos 80.
A rotina do oficial muda bruscamente quando ele é abatido durante uma perigosa missão de espionagem aérea. O avião cai no meio do gelado e remoto território soviético, isolando o soldado atrás das temidas linhas inimigas. A história ganha força real exatamente no instante em que o piloto cruza o caminho do ex-agente da KGB Nikolai Ustinov.
O recluso russo é interpretado por um Kenneth Branagh ostentando barba longa e cabelos volumosos. O veterano domina a tela usando um sotaque forçado propositalmente hilário e um comportamento totalmente excêntrico. Nikolai vive afastado do mundo e nutre uma paixão descontrolada pela cultura norte-americana e pelo famoso sonho americano vendido nas telas.
Essa obsessão capitalista nasce do consumo de cópias contrabandeadas do filme Top Gun: Ases Indomáveis. O ex-espião aceita ajudar o piloto invasor a escapar da morte certa, cobrando um alto preço pelo serviço arriscado. Ele exige asilo político nos Estados Unidos, iniciando uma caótica viagem de fuga pela vastidão da União Soviética.
A narrativa de Mayday rejeita a armadilha preguiçosa da nostalgia barata voltada para a década de 1980. A ambientação histórica serve como palco para criticar abertamente a postura bélica e a propaganda massiva da Guerra Fria. O longa usa as referências de Top Gun para zombar do ufanismo militar cego e da arrogância política ocidental.
A Dificuldade de Engolir o Protagonista

A estrutura narrativa inicial carrega marcas fortes da influência do próprio Ryan Reynolds nos bastidores, atuando também como produtor. A montagem lança o público direto em um pico de ação desenfreada para depois retroceder e explicar os fatos passados. Esse formato clássico poderia soar exaustivo, mas a direção segura o ritmo com mãos de ferro.
A parceria forçada entre inimigos de pátria poderia cair fácil no velho clichê do parceiro policial. A relação conturbada da dupla lembra os atritos vistos no mega sucesso Deadpool & Wolverine. A diferença substancial aqui reside na autenticidade visual e na capacidade criativa dos diretores em não se apoiarem apenas nas piadas do texto.
Escalar o astro de ação para esse papel principal parece o único erro grave da obra. O personagem Troy exige uma aura que balanceie o charme natural de Maverick com a prepotência militar de Hal Jordan. Reynolds fracassou entregando essas características no filme do Lanterna Verde e repete a exata mesma falta de magnetismo neste projeto.
O ator não transmite a imponência necessária para encarnar o herói americano clássico e patriota. As falas engraçadinhas do astro quebram o ritmo da ação e insistem em explicar situações que a imagem já mostrou perfeitamente. O texto brilhante brinca com a inteligência do espectador, enquanto o produtor mastiga a cena temendo a desatenção de quem assiste.
Kenneth Branagh e a Direção Criativa
Se atores com outra energia assumissem a jaqueta do piloto, teríamos um clássico instantâneo em mãos. A situação gera um paradoxo muito curioso dentro da filmografia de astros de grande escalão em Hollywood. Este é o projeto mais acertado de Reynolds em anos, mas ele figura disparado como a engrenagem mais fraca de toda a máquina.
Enquanto o norte-americano tropeça, Kenneth Branagh carrega a densidade da história nas costas com extrema facilidade. O cineasta britânico assume a missão de neutralizar a onipresença cansativa do colega de set. Ele rouba todas as cenas disponíveis, brilhando intensamente mesmo quando a idade exige a troca por um dublê na ação física.
A química da dupla funciona única e exclusivamente pelo esforço descomunal do falso ex-espião. O russo ganha o público com sacadas rápidas e uma entrega genuína no estilo de atuação exigido pela comédia física. A escaldante comparação que Nikolai faz dos Estados Unidos com um hambúrguer horrível consagra o ponto mais alto do diálogo da dupla.
Os diretores entendem perfeitamente como usar os espaços mudos e a fisicalidade dos atores para gerar risadas sonoras. A dupla escreveu os melhores roteiros do Homem-Aranha no estúdio da Marvel e domina o uso da imagem no gênero heroico. A comédia visual acerta na mosca e compensa qualquer escorregão gerado pelos improvisos verbais do piloto.
Limitações Visuais e o Debate Político

O orçamento controlado da plataforma de streaming afeta a construção dos cenários e o uso dos efeitos visuais. A produção tentou simular combates aéreos reais, mas a falta de dinheiro barrou a grandiosidade gráfica exigida pelo roteiro. A queda de paraquedas rasgado no meio dos destroços do jato militar recorre a fundos digitais bem evidentes na tela.
Para despistar essas limitações financeiras, a equipe aposta pesado em movimentos de câmera vertiginosos e cortes rápidos. As trocas de socos ganham uma velocidade agressiva que remete aos combates coreografados da franquia Kingsman. O vai e vem do zoom de lente simula a linguagem de filmes de espionagem antigos e mantém a energia lá no alto.
O debate político escondido sob a ação distribui críticas ácidas contra o sistema de forma muito consciente. Ustinov é a vítima alienada pelas mentiras do inimigo, enquanto Kelly reflete a superioridade oca de uma superpotência bélica de papel. O texto subverte o terror da guerra com cenas esdrúxulas ocorrendo nos corredores silenciosos da sombria cidade de Moscou.
A fuga frenética rende absurdos envolvendo o uso de armários apertados na residência de um membro do alto escalão do governo russo. A invasão explosiva ao apartamento da filha de Ustinov, vivida por Maria Bakalova, adiciona a dose de drama necessária. O roubo de um caminhão gigante durante a grande parada militar do Pervomay coroa o nível de absurdo proposital da jornada.
O ato final derrapa ligeiramente no peso dramático graças às evidentes limitações de atuação do protagonista. Reynolds empaca nas cenas emocionais e não consegue acompanhar a velocidade e a intensidade de Branagh em momento nenhum. Mesmo pesando a mão no olhar focado na indústria de Hollywood, a mensagem sobre alienação e poder absoluto ressoa bem forte.
Mayday lidera o ranking de grandes surpresas do ano e sofreu com um lançamento injustamente silencioso no catálogo digital. O projeto contou com a supervisão pesada de David Ellison, mas a obra pareceu chegar às TVs quase como um grande segredo. A fita entrega uma aventura imperdível de parceiros desajustados e merece as suas horas livres, sobrevivendo com louvor ao seu próprio protagonista.
Nota do Crítico
Bom
Wellington Farias
O Veredito
Mayday surpreende como uma das melhores comédias de ação do ano no Apple TV. A direção inteligente e o talento absurdo de Kenneth Branagh carregam o filme com facilidade, compensando totalmente a atuação repetitiva e sem carisma de Ryan Reynolds.
Ficha Técnica
- Título: Mayday (Mayday – EUA, 2026)
- Direção: John Francis Daley, Jonathan Goldstein
- Roteiro: John Francis Daley, Jonathan Goldstein
- Elenco: Ryan Reynolds, Kenneth Branagh, Marcin Dorociński, Maria Bakalova, David Morse, Clark Johnson, Wendy Crewson, Louis Cancelmi, Josh Hamilton, Lovell Adams-Gray, Alex Mallari Jr., Alex Ozerov
- Duração: 111 min.
