(O texto abaixo contém spoilers do oitavo episódio da 3ª temporada de A Casa do Dragão)
O encerramento da terceira temporada de Westeros deixou um gosto bem amargo no paladar. A Casa do Dragão 3×08 confirma os maiores medos dos fãs após uma sequência de episódios bastante irregulares. O finale entrega um roteiro apressado e desperdiça duramente grande parte do seu próprio potencial.
O capítulo, batizado de As Traições em Tumbleton, tenta empurrar todas as peças do xadrez de uma única vez. O resultado direto é um amontoado de atalhos narrativos que enfraquecem o peso real das decisões. O que deveria ser emocionalmente devastador acaba soando apenas como uma transição mecânica para o próximo ano.
A série escondia uma excelente temporada debaixo dessas falhas estruturais que saltam aos olhos. O colapso do governo na capital, o fanatismo religioso crescente e a crise dos bastardos montadores tinham força política. Contudo, a produção perdeu a paciência com a própria história e atropelou todos os arcos no encerramento.
A Casa do Dragão 3×08 e a Ruína de Rhaenyra Targaryen
O maior exemplo desse atropelo narrativo cai violentamente sobre as costas de Rhaenyra Targaryen. A rainha descobre a sobrevivência de Aegon e assume uma postura tirânica e surpreendentemente patética. A primeiríssima cena do episódio choca de forma negativa pela maneira bizarra como a série trata a protagonista.
A governante que tentava lidar com a política cinzenta e a sombra do pai some completamente do mapa. A personagem abraça um fanatismo perigoso e usa a profecia de Aegon, o Conquistador, para discursar nas ruas. Essa transformação repentina flerta abertamente com a infame e criticada reta final de Daenerys Targaryen.
O conceito dessa corrupção moral até funciona no papel, mas a execução falha de maneira grotesca. Faltou construir uma ponte crível e orgânica entre a governante acuada e essa nova figura messiânica radical. As decisões soam apenas como atitudes extremas jogadas na tela, sem qualquer base psicológica sustentável.
Mortes Apressadas e o Limbo Inacreditável de Aemond
O roteiro elimina personagens de forma fria apenas para forçar a radicalização cega da monarca. A morte de Helaena ocorre de maneira abrupta e gera pouquíssima culpa real dentro da trama principal. O assassinato do Alto Septão pelas mãos de Alyn segue essa mesma pressa narrativa totalmente descuidada.
O término do relacionamento entre a rainha e Mysaria também acontece sem grandes cerimônias. Esses recortes provam que os showrunners escolheram a velocidade desenfreada no lugar da profundidade dramática. O espectador assiste às tragédias se acumularem sem conseguir sentir empatia pelas peças do jogo.
Longe de Porto Real, Aemond Targaryen encerra um ciclo que beira o absurdo absoluto na televisão. O príncipe caolho passou a temporada inteira trancado nas ruínas de Harrenhal sem nenhuma função lógica. Os escritores criaram um limbo vergonhoso que paralisou um dos melhores antagonistas do show.
A presença de Aegon melhora levemente a situação desse núcleo completamente isolado e maçante. Porém, o sumiço conveniente de Vhagar, a mudança no perfil de Aemond e o retorno súbito de Sunfyre incomodam demais. A subtrama mística envolvendo a bruxa imortal também despede-se da tela de forma totalmente anticlímax.
A Batalha de Tumbleton e as Bizarrices Táticas
O grande espetáculo do encerramento oficial ocorre no campo banhado por sangue e chamas inimigas. O cerco de Tumbleton reúne o exército Verde e Preto em um choque inevitável e violento. A ação entrega grandiosidade visual inegável, mas sofre com sérias bizarrices estratégicas dos generais em campo.
A equipe de direção merece aplausos por evitar o uso de batalhas noturnas excessivamente escuras. O episódio ostenta ótimos planos panorâmicos, destacando a qualidade da computação gráfica nos voos das feras aladas. O confronto corpo a corpo na lama possui uma ótima coreografia de espadas e escudos.
Entretanto, a falta de lógica militar joga fortemente contra a imersão do público durante o massacre bélico. O ataque frontal ordenado por Daemon soa genérico e não condiz com sua vasta experiência nas guerras. Ormund Hightower revela-se um comandante decepcionante, dependendo inteiramente da bússola moral dos seus adversários.
Ulf e o Fim Amargo da Terceira Temporada
A rebelião do cavaleiro Ulf surge como o recurso mais preguiçoso de toda a Batalha de Tumbleton. O bastardo vira a casaca no momento mais conveniente possível apenas para o roteiro conseguir equilibrar a briga. A manobra enfraquece o senso de perigo real e desvaloriza muito a inteligência tática militar.
A direção da sequência falha ao não estabelecer uma geografia espacial clara do terreno atacado. Essa falta de zelo dramatúrgico deixa a audiência completamente anestesiada diante dos corpos mutilados no chão. O cerco entretém momentaneamente, mas passa longe de cravar um confronto grandioso na cultura pop.
As Traições em Tumbleton vende um pacote ágil que diverte apenas a camada mais superficial da audiência. O terceiro ano começou apostando alto em disputas palacianas e desmoronou entregando enredos vazios. A Dança dos Dragões entra em hiato confirmando o enorme desperdício de um enredo riquíssimo.
Nota do Crítico
Bom
